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As palavras,
inseridas em determinados contextos sociais, econômicos, históricos
e culturais, adquirem contornos específicos, tornam-se conceitos,
categorias que orientam e organizam ações. Por isso, especialmente
algumas palavras, devem ser objeto de constante reflexão,
sob pena de não mais sabermos interpretar o mundo. É exatamente
disto que este artigo pretende tratar ao problematizar o conceito
conhecido como terceiro setor.
É possível
perceber que algumas palavras começam a entrar em evidência, entre elas globalização,
flexibilidade, qualidade, parceria, cidadania, e as palavras terceiro e setor
que, juntas, formam o termo terceiro setor. Afinal, que idéia traz este conceito
de terceiro setor? Que modos de pensar e agir encerra? A grosso modo, o terceiro
setor explicita a existência de uma articulação entre o Estado, os empresários
e organizações da sociedade civil. Esta articulação tem como objetivo e compromisso
fomentar ações voltadas para melhoria da qualidade de vida da população, principalmente
a mais carente, no que se refere a itens que vão desde a saúde, educação e cultura
até a segurança e questões ambientais. O
que marca a especificidade deste setor é que todas as suas atividades - em essência,
forma e conteúdo - são voltadas para o público e não devem ter fins lucrativos.
Em geral o trabalho é realizado em grupos - associações, centros, fundações e
institutos. Estes grupos, por sua vez, dependem de doações de recursos humanos
e financeiros, vindos geralmente de empresas particulares que podem abater o montante,
ou parte dele, do imposto de renda pago ao Estado. Em
grande medida, é esta isenção que tem incrementado o terceiro setor. Ora, falar
de terceiro setor pressupõe a existência de um primeiro e de um segundo setor.
O que e quem seriam? Quais são os seus papéis? Sem discorrer sobre as diferentes
teorias econômicas, o primeiro setor é ocupado pelo Estado. Ainda que muitas mudanças
no mundo do trabalho estejam em curso, cabe ao Estado garantir, por meio de recursos
vários, entre eles os que provém da cobrança de impostos de pessoas físicas e
jurídicas, a saúde, educação, segurança etc. Ao segundo setor cabe a economia
privada, cuja ligação é com o mercado. Os
empresários produzem e vendem bens e serviços, contratam e pagam mão-de-obra,
compram matéria-prima e tecnologia e, além disso, pagam taxas e impostos ao Estado.
Resumindo, os recursos do setor privado destinam-se ao setor privado e o compromisso
com o bem-estar da população em geral estaria fora de seu âmbito direto de atuação.
Já os recursos do setor público devem ser destinados às ações públicas, em cumprimento
aos direitos garantidos pela Constituição. Nesse
ponto, é necessário lembrar que na história da legitimação dos direitos a participação
cidadã sempre foi decisiva. De maneira mais ou menos intensa, a sociedade civil
reúne esforços para conquistar bens necessários à produção e reprodução da vida
em sociedade, o que o faz organizando-se em instituições diversas. Atualmente,
o terceiro setor engloba o Estado, empresas e sociedade civil, organizados num
tripé e com interesses em comum. Não
é fácil precisar quando surge, no Brasil, o terceiro setor e por várias razões.
Ainda que estes setores tenham a sua raia de ação, é fato que uma pequena parte
do empresariado brasileiro já destinava parte de seus recursos para a área social,
seja em forma de benefício para os funcionários ou ainda como doações diretas
para entidades assistenciais. Junta-se a isso que na história brasileira, principalmente
a partir dos anos 70, facilmente localizamos inúmeras organizações não governamentais
que, por aspirações religiosas, políticas ou culturais, desenvolveram e desenvolvem
projetos em vários níveis, sustentados, em grande parte, por financiamentos do
setor público ou privado. Desta
perspectiva, novo então é apenas o termo terceiro setor, que têm mostrado forte
tendência de crescimento. Obviamente não apenas por bondade e caridade de empresários,
mas sim porquê:
a) o acesso aos bens culturais e sociais, o atendimento da saúde pública, a educação
pública, o transporte público, a segurança pública e geração de emprego são quesitos
fundamentais para a vida em sociedade; b) esses quesitos não têm sido atendidos
de maneira satisfatória, e os problemas sociais chegam ao nível do insuportável;
c) é notório que as políticas e os recursos públicos não estão mostrando
capacidade de responder à altura as demandas sociais; d) fora da esfera governamental
há pessoas, grupos ou instituições capazes e dispostas a contribuir, até mesmo
como voluntários. No
Brasil do final de milênio, a reunião de pessoas com interesses comuns tende a
estabelecer-se cada vez mais, principalmente quando as ações da sociedade civil
começam a ganhar mais visibilidade ao conseguir, ao menos, pautar os problemas
sociais mais candentes; quando as empresas começam a detectar que investir na
área social pode ser um bom negócio, com retornos publicitários e financeiros;
quando o Estado incrementa a política de isenção de impostos, facilitando doações.
O terceiro setor
junta pessoas, o que é sempre bom. Podemos fazer algumas coisas sozinhos,
mas o alcance maior é dado quando usamos a continha simples do 1 + 1 = 2 e, então,
como nas palavras cantadas por Beto Guedes, "um mais um é sempre mais que dois".
Contudo, é necessário não deixar prevalecer o jargão que afirma que "se cada um
fizer a sua parte, tudo se ajeitará". É fundamental nomear muito bem o "cada um"
e a "sua parte". O terceiro setor pouco contribuirá efetivamente caso não discuta
os papéis e práticas dos setores articulados nos projetos sociais e principalmente
o contexto social que ora vivemos. Discussão de idéias, esclarecimentos, reflexões,
negociações, ações, solidariedade. Não serão estes alguns dos componentes fundamentais
para o tão falado exercício de cidadania?
Exercício que deve ser ampliado para além do verbete encontrado no dicionário
Aurélio: cidadania: qualidade ou estado de cidadão. Escutar e refletir mais sobre
as palavras. Eis uma questão séria e necessária. |